quarta-feira, 16 de maio de 2012

Empresa quer culpar trabalhador morto


Depois do acidente de trabalho, empresa de cimento não presta assistência à família e vai à delegacia depor contra operário morto


Uma manifestação marcou os dois meses da morte de Valdir de Melo. O caldeireiro de 37 anos de idade foi eletrocutado no dia 16 de março dentro da Itaguassu/Nassau, fábrica de cimento de Sergipe. Dois meses depois do acidente, a empresa ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto e cria obstáculos para que a família tenha acesso aos direitos trabalhistas de Valdir.

O ato foi organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Cimento, Cal, Gesso e Cerâmica de Sergipe (Sindicagese), que é filiado à CSP Conlutas. O PSTU, a Assembleia Nacional dos Estudantes Livre (ANEL) e o Sindicato dos Petroleiros de Alagoas e Sergipe (Sindipetro AL/SE) também participaram da atividade e prestaram solidariedade.

“A gente quer trabalhar, mas não quer trabalhar para morrer. A empresa não tem respeito por nenhuma das companheiras e companheiros que trabalham aqui. Nós estamos aqui para falar da vida não só de Valdir. Nós não queremos que nenhuma outra morte aconteça”, falou Vera Lúcia, presidente do PSTU/SE, durante o ato.

O acidente
“Quando Valdir morreu, a empresa não foi procurar a família, reunir a Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] ou investigar o acidente. Mandou o engenheiro para a Delegacia Plantonista dizer que Valdir tinha entrado no equipamento ligado sem permissão. Na dentro da fábrica, a gerência insinua que o nosso companheiro queria se matar. Isso é um grande absurdo”, afirma Djenal Prado, diretor do Sindicagese.

O sindicalista esclarece que o caldeireiro começou a fazer a manutenção do eletrofiltro pela manhã, parou para almoçar e iria continuar à tarde. Ao voltar para o trabalho, Valdir, pensou que encontraria o equipamento ainda desligado. Mas a máquina voltou a funcionar sem que ele fosse avisado. O caldeireiro foi atingido por uma descarga de cerca de 40 mil volts.

O Ministério do Trabalho já foi provocado para iniciar as investigações. “Exigimos uma investigação isenta, com a participação do sindicato. Queremos que os responsáveis, a gerência e os donos da fábrica, sejam punidos pela morte de nosso companheiro”, defende Djenal. A justiça também foi acionada para que a família receba pelos danos materiais e morais.

Saúde e Segurança
O pai de Valdir, José Melo, ainda encontra forças no meio de sua dor para conclamar os trabalhadores. “Eu trabalhei por mais de 20 anos em fábrica de cimento. Fui caldeireiro que nem meu filho. Vi muito acidente. Por isso também estou nessa luta. A turma tem que se conscientizar que ontem morreu meu filho. Amanhã pode ser qualquer outro. Ninguém quer que isso aconteça”, conclui.

“É importante que todos os trabalhadores exerçam o Direito de Recusa. A lei garante. Ninguém é obrigado a trabalham em ambiente perigoso. Além dessa briga, é importante manter a mobilização pela redução de pó, calor e ruído dentro das unidades”, detalha Heribaldo de Campos, presidente do Sindicagese.

No Brasil, por ano, são registradas cerca de três mil mortes por acidente de trabalho. Uma morte a cada três horas. Todas essas mortes poderiam ter sido evitadas com procedimentos adequados de segurança. Em Sergipe, se a Nassau tivesse um simples equipamento coletivo de bloqueio de eletricidade, Valdir estaria hoje com seus dois filhos.

Mas, onde os trabalhadores vêem segurança, a empresa só enxerga custos, que devem ser evitados. O problema é que esse corte de investimento custa a vida de pessoas.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Três meses de impunidade


Pela segurança no trabalho: viemos para trabalhar e não para morrer.



A morte de Valdir Silva Melo, o Guerreiro, completa três meses. Há três meses, seus dois filhos estão sem o pai, sua esposa não tem mais companheiro. Sua mãe não pôde comemorar o Dia das Mães junto dele. A presença de Valdir faz falta para familiares e companheiros de trabalho. Mas, ao que parece, para a Itaguassu/Nassau não faz a menor diferença.
Até agora, a empresa não prestou nenhuma assistência à família. Pelo contrário. Cria ainda hoje barreiras para liberar documentos úteis para a família acionar o seguro. Nenhuma declaração oficial sobre a morte de Valdir. Ao invés de procurar a família para prestar solidariedade, a Itaguassu/Nassau achou melhor procurar a delegacia.
            Um engenheiro da fábrica prestou depoimento na Delegacia Plantonista de Aracaju dizendo que Valdir entrou na área do eletrofiltro, equipamento onde foi eletrocutado, sem autorização. Mais: desparafusou as travas da porta e entrou na máquina por sua própria conta. Uma versão muito cômoda para a empresa. Não seria de se estranhar se a Itaguassu/Nassau espalhasse a ideia de que a culpa da morte é do próprio morto e de que Valdir teria cometido suicídio.
Segurança
O que está por trás desse joguinho absurdo de versões é a tentativa da empresa esconder sua responsabilidade. Os trabalhadores da fábrica correm risco de sofrer acidentes graves e perdem sua saúde aos poucos todos os dias. Essa é a verdade que a Itaguassu/Nassau quer driblar.
A assessoria jurídica do sindicato entrará na justiça exigindo da fábrica o pagamento de danos morais e materiais. Também exigirá a responsabilização criminal. A morte de Valdir não pode passar impune. Hoje foi ele, amanhã pode ser qualquer um de nós. Um companheiro de trabalho nosso perdeu a vida. Seus filhos perderam um pai. E nós, trabalhadores, vamos ficar calados diante disso? 

Votorantim é condenada a pagar meio milhão por pressionar trabalhadores contra sindicato


Mais um exemplo de que quem tem coragem e peita a empresa ganha... e muito.

Aconteceu lá em Três Marias, interior de Minas Gerais. A Votorantim Metais Zinco S/A foi condenada a pagar R$ 500 mil por dano moral coletivo. A empresa ameaçou os trabalhadores para que eles pressionassem o sindicato a assinar um acordo ruim.
            A briga era sobre a jornada do turno de revezamento. Os trabalhadores de turno tinham carga horária de 8 horas, do mesmo jeito que é aqui, em Sergipe. Mas os empregados vinham avaliando que era melhor que a jornada fosse de 6 horas. A lei garante esse direito ao trabalhador de turno. A Votorantim, com medo disso, passou a ameaçar os trabalhadores para que o sindicato renovasse o acordo com jornada de 8 horas. O caso foi levado ao Ministério Público do Trabalho, que acionou a Justiça do Trabalho.  
            Sergipe
      Pressionar trabalhador é especialidade da Votorantim. Em Sergipe não é diferente. Se tem assembleia sobre PPR, a empresa cria confusão para o trabalhador não comparecer. Bota até gente de olho para anotar os nomes dos participantes. Se continuarmos acuados, a situação só vai piorar.
            Coragem
          Dentro da fábrica, só se ouvem reclamações dos trabalhadores. Sobre as péssimas condições de trabalho, os baixos salários, a PPR ridícula, enfim. Exemplos como esse servem para nos dar ânimo para lutar por nossos direitos. Seis meses atrás, os trabalhadores da Votorantim em Rio Branco do Sul, no Paraná, ameaçaram greve e conseguiram o melhor acordo coletivo das fábricas do grupo no Brasil inteiro. Chegou a hora de deixar o medo debaixo da cama e vestir a coragem na hora de ir para a fábrica. Só assim vamos ter grandes conquistas.

Sindicagese marca presença no I Congresso da CSP Conlutas

   
     Mais de 2.300 pessoas participaram do I Congresso da Central Sindical e Popular Conlutas, no final de abril em Sumaré, interior de São Paulo. Estavam lá representados trabalhadores e estudantes de 25 estados do Brasil e do Distrito Federal. Tinham também sindicatos e movimentos sociais de outros países das Américas, Europa, África e até do Japão.
    E no meio de todo esse povo guerreiro estava o Sindicagese, levando as experiências de luta dos trabalhadores de Sergipe. “Nós fomos até lá para falar e também aprender. Conseguimos no unir com sindicatos do Brasil e do mundo para formar uma estratégia de luta contra os ataques dos patrões governos”, fala Djenal Prado, um dos três representantes do Sindicagese que estavam no congresso.

    1º de maio
   Depois de planejar e trocar experiências, a turma da CSP Conlutas foi para as ruas. A central organizou a maior manifestação de protesto do dia do trabalhador. “Enquanto a CUT, a Força Sindical, a CTB e outras centrais pelegas estavam fazendo festa, nós fomos pra rua denunciar as maldades do governo e dos patrões”, explica Djenal, diretor do Sindicagese.
   O protesto reuniu aproximadamente 2.500 pessoas, segundo os organizadores. A imprensa chegou a relatar 4 mil. Na sua maioria delegações nacionais que participaram do congresso da central. Entre eles, trabalhadores da hidrelétrica de Belo Monte.
  “Temos que ver além da propaganda. É justiça social o que aconteceu no Pinheirinho? É justiça social as condições de trabalho dos operários das obras do PAC e Belo Monte? O que vemos é a maior degradação das condições de vida enquanto aumentam os lucros das grandes empresas e dos bancos”, denunciou Zé Maria, membro da Coordenação Nacional da CSP Conlutas.