Depois do acidente de trabalho, empresa de cimento não presta assistência à família e vai à delegacia depor contra operário morto
Uma
manifestação marcou os dois meses da morte de Valdir de Melo. O caldeireiro de
37 anos de idade foi eletrocutado no dia 16 de março dentro da
Itaguassu/Nassau, fábrica de cimento de Sergipe. Dois meses depois do acidente,
a empresa ainda não se pronunciou oficialmente sobre o assunto e cria
obstáculos para que a família tenha acesso aos direitos trabalhistas de Valdir.
O
ato foi organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Cimento,
Cal, Gesso e Cerâmica de Sergipe (Sindicagese), que é filiado à CSP Conlutas. O
PSTU, a Assembleia Nacional dos Estudantes Livre (ANEL) e o Sindicato dos Petroleiros
de Alagoas e Sergipe (Sindipetro AL/SE) também participaram da atividade e
prestaram solidariedade.
“A
gente quer trabalhar, mas não quer trabalhar para morrer. A empresa não tem
respeito por nenhuma das companheiras e companheiros que trabalham aqui. Nós
estamos aqui para falar da vida não só de Valdir. Nós não queremos que nenhuma
outra morte aconteça”, falou Vera Lúcia, presidente do PSTU/SE, durante o ato.
O acidente
O
sindicalista esclarece que o caldeireiro começou a fazer a manutenção do
eletrofiltro pela manhã, parou para almoçar e iria continuar à tarde. Ao voltar
para o trabalho, Valdir, pensou que encontraria o equipamento ainda desligado.
Mas a máquina voltou a funcionar sem que ele fosse avisado. O caldeireiro foi
atingido por uma descarga de cerca de 40 mil volts.
O
Ministério do Trabalho já foi provocado para iniciar as investigações.
“Exigimos uma investigação isenta, com a participação do sindicato. Queremos
que os responsáveis, a gerência e os donos da fábrica, sejam punidos pela morte
de nosso companheiro”, defende Djenal. A justiça também foi acionada para que a
família receba pelos danos materiais e morais.
Saúde e Segurança
O
pai de Valdir, José Melo, ainda encontra forças no meio de sua dor para
conclamar os trabalhadores. “Eu trabalhei por mais de 20 anos em fábrica de
cimento. Fui caldeireiro que nem meu filho. Vi muito acidente. Por isso também
estou nessa luta. A turma tem que se conscientizar que ontem morreu meu filho.
Amanhã pode ser qualquer outro. Ninguém quer que isso aconteça”, conclui.
“É
importante que todos os trabalhadores exerçam o Direito de Recusa. A lei
garante. Ninguém é obrigado a trabalham em ambiente perigoso. Além dessa briga,
é importante manter a mobilização pela redução de pó, calor e ruído dentro das
unidades”, detalha Heribaldo de Campos, presidente do Sindicagese.
No
Brasil, por ano, são registradas cerca de três mil mortes por acidente de
trabalho. Uma morte a cada três horas. Todas essas mortes poderiam ter sido
evitadas com procedimentos adequados de segurança. Em Sergipe, se a Nassau
tivesse um simples equipamento coletivo de bloqueio de eletricidade, Valdir
estaria hoje com seus dois filhos.
Mas,
onde os trabalhadores vêem segurança, a empresa só enxerga custos, que devem
ser evitados. O problema é que esse corte de investimento custa a vida de
pessoas.